2.8.17

Analisando a música: Society (Eddie Vedder)

O analisando a música da vez foi um pedido da Magê. Ela e a Rapha fazem um podcast chamado Livre e o tema do episódio da semana passada foi Grandes Viradas. No podcast a Magê citou o filme Into The Wild (Na Natureza Selvagem) como exemplo de uma grande virada no cinema e até colocou um pedaço dessa música.

Aí ela me pediu para analisar Society e como sou fã do Eddie Vedder (que lê o blog sabe que a voz dele é mel nos meus ouvidos) disse que faria, claro.

Society faz parte da excelente trilha sonora de Na Natureza Selvagem, um filme sobre um rapaz que deixa tudo para trás (a grande virada da vida dele) e vai num road trip pelos Estados Unidos até chegar no Alasca. O filme é baseado no livro de mesmo nome do Jon Krakauer (não li).

Esse filme é muito bom, escrevi um post aqui no blog quando assisti.  Até coloquei no meu Top 5 filmes de viagem só porque depois de ver esse filme fiquei com vontade de ir ao Alasca. De lá pra cá já vi mais algumas vezes e ainda acho um filme sensacional, tanto nas imagens quanto na história do Christopher McCandless e especialmente na trilha sonora.

O Sean Pean, diretor do filme, escolheu o Eddie Vedder a dedo para a trilha sonora (eu escolheria o Eddie Vedder para qualquer trilha sonora).

A trilha sonora é toda composta de músicas que refletem a jornada do Christopher McCandless. A maioria é de músicas no estilo folk, voz e violão. Guaranteed que é a última música do album deu ao Eddie Vedder um Globo de Ouro de Melhor Canção Original em 2008.

Um parenteses para dizer que a galera do Oscar em 2008 não indicou nenhuma música dessa trilha. Indicaram 3 músicas do Encantada da Disney (#revoltada), ainda bem que quem ganhou o Oscar foi Falling Slowly de Once.

Eddie Vedder canta todas as músicas na trilha sonora, mas nem todas foram compostas por ele. Hard Sun que é a música de maior sucesso dessa trilha é um cover de um músico canadense chamado Indio (o nome dele é Gordon Peterson, com esse nome eu também ia preferir Indio).

Society também não é do Eddie Vedder, foi composta por um cantor-compositor americano chamado Jerry Hannan, mas aqui é o Eddie que canta e é isso que interessa.

Vamos analisar o que Society tem a nos dizer.

Essa música foi composta para a trilha sonora de na Na Natureza Selvagem. O filme conta a história do Christopher McCandless um rapaz que buscava uma vida anti materialista. Depois que se formou na universidade resolveu doar seu dinheiro para uma instituição e foi ver onde a vida o levava pelas estradas dos Estados Unidos até chegar no Alasca. Ele passa por muitas situações: enchentes que o pegam de surpresa, vive num trailer numa comunidade, faz caiaque no Grand Canyon, trabalha numa fazenda para ganhar din din (o mínimo para sobreviver), mora com um senhor e aprende a trabalhar com couro, trabalha num restaurante fast food, etc. Quando chega no Alasca vive sua última aventura num lugar onde ele depende exclusivamente da natureza (selvagem).

It's a mystery to me
We have a greed
With which we have agreed
You think you have to want more than you need
Until you have it all you won't be free

Em um momento do filme ele vai parar em Los Angeles, chega em homeless town (uma area do centro de L.A. que é cheia de mendigos) e arranja um lugar para deixar as coisas. Passeando pela cidade Chris vê num bar um yuppie que poderia ser ele e então decide ir embora da cidade grande. Ele pega uma carona num vagão de trem mas é pego pelos seguranças no meio do caminho e apanha um bocado.

Ele vai para estrada pedir carona e corta para cenas lindas dele no Alasca e essa música começa a tocar.

A música começa dizendo que é um mistério esse acordo que temos (nós a sociedade) em que todos temos que ter essa ambição/ganância de ter mais do que precisamos. Que a liberdade (ou a sensação de) só vem quando temos tudo.

Society you're a crazy breed
I hope you're not lonely without me

No filme tem uma parte (quando ele está trabalhando na fazenda) que ele faz um meio discurso dizendo que quer ir para natureza selvagem do Alasca porque quer sair "dessa sociedade doente". Chris diz que não entende como as pessoas podem ser tão más umas com as outras, julgando e controlando, pessoas cheias de hipocrisia.

Então o refrão não poderia ser outro: Sociedade, sua louca, espero que eu não esteja fazendo falta.

When you want more than you have, you think you need
And when you think more than you want
Your thoughts begin to bleed
I think I need to find a bigger place
'Cause when you have more than you think
You need more space

Aqui uma reflexão sobre querer mais do que tem e querer mais do que precisa. E que quando você pensa mais do que quer os pensamentos sangram (no sentido de derramar, transbordar). E aí ele diz que precisa de um lugar maior porque quando se tem mais do que se pensa você vai precisar de mais espaço.

Essa estrofe é um convite ao minimalismo

Lembrei da outra música que analisei: Everything Now que em uma estrofe diz: "Quero e preciso de tudo agora, até cada quarto da minha casa estar cheio de porcarias que não pude viver sem".

Society you're a crazy breed
I hope you'r not lonely without me
Society, crazy indeed
I hope you're not lonely without me

O Chris tinha muitos problemas com os pais, muitas diferenças especialmente com o pai. A história da família é contada em partes ao longo do filme pela irmã dele. A irmã conta que durante essa viagem ele nem se comunicava, nada de cartas nem telefonemas.

Sociedade, uma raça louca, louca de fato. Espero que não estejam solitários sem mim.

There's those thinking more or less less is more
But if less is more how you keeping score?
Means for every point you make your level drops
Kinda like you're starting from the top
You can't do that...

Aqui é uma tentativa de entender como é que a sociedade funciona com aqueles que pensam (mais ou menos) que menos é mais. Acho que é uma crítica as pessoas que tentam manter um estilo minimalista pero no mucho. Então a pergunta: "se menos é mais como é que vocês contam os pontos? Para cada ponto que você faz seu nível cai? Começa do topo? Assim não pode." Essas pessoas que continuam vivendo na sociedade louca, então não estão livres do julgamento e controle das coisas que são quase que impostas pela sociedade, essa tal contagem de pontos.

O Chris McCandless trabalhava só para ter o mínimo de dinheiro. Quando ele trabalhou na fazenda até ganhou um bom dinheiro, foi gastar se divertindo e em um momento do filme ele escreve para o cara da fazenda (que foi preso) e diz que vagabundiar com o dinheiro que ele recebeu é fácil e afirma que os dias eram mais emocionantes quando ele não tinha um centavo no bolso. O Chris radicalizou na sua busca por uma vida só com o mínimo e o essencial, pela liberdade definitiva (se é que isso existe) mas ele também era viciado em emoções.

Society you're a crazy breed
I hope you'r not lonely without me
Society, crazy indeed
I hope you're not lonely without me
Society, have mercy on me
I hope you're not angry if I disagree

O refrão mais uma vez, mas agora ele acrescenta: Sociedade, tenha pena de mim, espero que você não tenha raiva se eu discordar.

Vamos filosofar nessa frase.

Claro que não concorda com as regras da sociedade tanto que decidiu viver na natureza selvagem, livre, leve e solto. Acontece que, na música, ele pede compaixão para si mesmo, será isso ironicamente? Ou um entendimento que a sociedade pode achar tudo isso uma maluquice e pede pena? Afinal ele diz "Espero que você não esteja solitária sem mim", não se sintam abandonados. É uma contradição: ele não quer fazer parte da sociedade (do jeito que é) mas não quer ser esquecido. No filme ele diz que vai viver essa aventura e depois quem sabe escrever um livro, então ele tinha a intenção de voltar para essa nossa sociedade louca.

Pelo o que o filme mostra o Chris McCandless era cheio de empatia, bondoso e carismático. Todos que cruzaram seu caminho o adotaram de alguma forma: como filho, como neto, como amigo. Ainda assim ele decidiu seguir seu caminho sozinho.

O fim do filme, e da vida do Chris McCandless, é trágico. Quando ele chegou no Alasca e foi para o meio do mato ele não foi preparado para muitas coisas. Ele achava que iria encontrar tudo na natureza (e nos livros sobre a natureza) e não contava com adversidades num lugar que ele não conhecia e acabou morrendo de fome.

Não é uma história com final feliz mas é inspiradora em muitas partes.

Encontrei um video da música no youtube que tem cenas do filme (que está na Netflix). A fotografia desse filme é linda.

4 comentários:

  1. Ah, que legal! Tbm sou super fã do Eddie!

    ResponderExcluir
  2. Muito bom! Além de fã do Eddie Vedder amo este filme. Parabéns pela análise.

    ResponderExcluir